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Despretensiosos e singelos: é assim que vejo minhas crônicas e meus contos. As crônicas retratam pedaços da minha vida; ora são partes da ...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Carta para meu amigo J. M.

 

Ao amigo J. M.

Em mãos

 

Caríssimo J.M, devolvo-lhe a biografia do Maluco Beleza. Não diga que a canção está perdida. Você foi muito gentil ao me emprestá-la, sobretudo sabendo do meu apreço pelo baiano arretado, baiano de Quenguenhém, oito horas de mula, doze de trem. Meu filho, inclusive, tem o nome em homenagem ao pai do rock brasileiro.

Leitura agradável, me fez viajar no tempo. Voltei ao ano de 1973, quando do primeiro grande sucesso, Ouro de Tolo. Estourou em todas as rádios do país, menos na da minha cidade natal, Lençóis Paulista. Cidade pequena, na época com aproximadas 30, 40 mil pessoas, a única emissora de rádio, a Difusora, não tinha o disco para tocar. Que lástima! O que eu fiz? Numa das minhas viagens a São Paulo (sempre a serviço), comprei um compacto simples. Ouro de Tolo de um lado; do outro, A Hora do Trem Passar.

Do alto dos meus 16 anos de idade, tratei de levar o disco até a emissora e, qual não foi o meu desgosto, ouvi um sonoro “não, não podemos tocar!” O motivo? Naqueles tempos, as rádios só tocavam os discos recebidos diretamente das gravadoras, através dos divulgadores, agentes que botavam os discos sob as axilas e os distribuíam, país afora. E agora! Eu não tinha sequer uma miserável Sonata. Apesar disso, andava, orgulhoso, com o disquinho, pra cima e pra baixo. Fazia sucesso com os amigos, que nunca tinham visto tamanha preciosidade. Mas, sendo todos pobres, víamos, mas não ouvíamos. Demorou mais de um ano para que a Difusora, enfim, recebesse o volume de divulgação, mas aí a onda já havia passado.

Onda que havia passado para alguns, porquanto até hoje é um disco cultuado. Raul tinha, e tem, uma grande legião de fãs. Eu mesmo me senti raulseixista desde então. Adquiri todos os discos de linha do Mago; conheço quase que a maioria das letras – sem cantá-las, claro! Em 1981, enfim, tive a oportunidade de vê-lo, ao vivo, num show realizado em São Paulo, na quadra do antigo Cursinho Equipe. Fiquei sabendo, depois, que ali estudavam o Serginho Groismann, a Laís Bodanski; ali se conheceram os Titãs – enfim, creio que todos esses estavam ali, naquele show que, deslumbrado, eu pude ver.

Logo depois, disso, em 1982 li, entristecido, na Folha de São Paulo, sobre os fatos deploráveis ocorridos em Caieiras, na grande São Paulo: de tão bêbado, o Maluco foi confundido com um impostor. Apanhou da plateia, porque não conseguia cantar. Baixou polícia, essas coisas. O delegado dizia: se é mesmo o Raul, então canta, porra! Agora! Vamos! Canta! O coitado nem conseguia falar, ébrio incorrigível. E mais pancada, até que alguém da gravadora apareceu e o retirou daquela encrenca. Foi um período de pouco reconhecimento e de muitos exageros. Creio até que não teve queda na produção musical, pois continuou compondo, sempre em alto nível.

Voltei também, caro J.M., como que abduzido por um disco voador, voltei ao ano de 1985, ano em que fui pela primeira vez a Porto Seguro. Interessante: Quenguenhém rima com trem, que rima, também, com Buranhém, rio caudaloso que nasce em Minas Gerais e vai desaguar em Porto Seguro, entre a cidade baiana e o povoado de Arraial D’Ajuda. Não tem ponte, somente travessia de balsa, para carros, caminhões, ônibus, bicicletas, pessoas e animais. É uma aventura e tanto, acredite. Estava eu, naquele 1985, voltando da Ajuda para Porto Seguro, de tardezinha, balsa com pouca carga. Me deliciava com a brisa refrescante, olhava, deslumbrado, as águas azuis e mansas do rio, prontas para o encontro com o mar. Era a minha primeira viagem para o nordeste – e justamente para Porto Seguro (que privilégio, pensa bem!), que na época era o paraíso dos mochileiros e remanescentes do hipismo, nudistas (todos, praticamente) e maconheiros (nem todos, claro!). E, de repente, eu, absorto, sentado na popa da embarcação, me dei conta de uma música sendo assoviada maviosamente: pois era um marujo que, entre um embarque/desembarque e outro, estava deitado no fundo da balsa, descansando, e, sem que nem ele percebesse, estava me deleitando com os assopros perfeitos de “Capim Guiné”. Olhei atento, ouvi mais atento ainda. Posso jurar que ninguém ali se deu conta daquele sublime e mágico momento, em que o silêncio absoluto conspirou para que eu pudesse ouvir aquele som inesquecível. Guardo isso na memória; combinação perfeita de eventos superiores que nunca mais experimentei igual.

Ainda na mesma Porto Seguro, agora em 1987, eu e minha querida companheira, Ber, nos deliciamos com um episódio único. Estávamos hospedados num casarão colonial na Passarela do Álcool. De madrugadinha, formos despertados por um batalhão do Tiro de Guerra que se se exercitava, em marcha cadenciada, bem ao nascer do sol: um, dois, um, dois, um, dois. Marchem, soldados! Um, dois... E a sola dos coturnos num bate-que-bate nos centenários paralelepípedos do lugar. E atrás do batalhão, em prudente distância, veio um carro de onde se ouvia, em alto e bom som, a música “Mamãe eu não queria”, naquela voz chorosa e desesperada do Raulzito. Suprema gozação dos destemidos rapazes, foi o assunto do dia na praia do Mucugê. Convenhamos, o místico esculhambou a ditadura militar como poucos fizeram.

Me lembrei também, do meu amigo, Z. C., que também era fã do Bruxo. Certa feita, o Z. me apareceu com um remendo na sobrancelha esquerda: foi um copo que voou e quase lhe custou a vista. O fato se deu num show, me contou ele, do nosso icônico ídolo que, para variar, outra vez desgostou a plateia com mais uma bebedeira daquelas, provocando revolta de fãs mais exaltados.

No final dos anos 1980, eu trabalhava na Avenida Paulista. Na saída do trabalho, de tardezinha, eu descia a Rua Frei Caneca, a caminho de casa. Passava, então, pela frente do prédio 1100, Edifício Aliança, onde Raul morava. E sempre na esperança de vê-lo, ainda que apenas de passagem. Nunca o vi, entretanto. Mas, perceba, J. M., que interessante. Eu frequentava uma casa de discos, com longas prateleiras abarrotadas de tudo quanto era vinil. Era uma tentação e os preços eram módicos. Passava na frente do Aliança e entrava na casa de discos, bem ao lado; ali eu ficava, quase todos os dias, por uma ou duas horas.

Foi desse modo que o dono da loja (Valdir, se a memória não me trai), soube do meu apreço pelo Maluco Beleza. Disse-me, então, que se eu quisesse vê-lo, bastaria passar pela loja por volta das 15, 16 horas, que ele estaria ali. Batendo ponto, diariamente. Ficava até 17 horas, quando a empregada o levava de volta para o apartamento. Mas, me adiantou o Valdir: “acho que você vai se decepcionar, pois ele está sempre muito bêbado; não fala coisa com coisa. Ele se debruça na ponta do balcão e dorme em pé. Baba e ronca, até que a empregada chega”. Pois então, sabendo disso, preferi não ver o roqueiro naquelas condições. Não quis ver meu ídolo debruçado num balcão em estado lastimável. Imagino que seria algo parecido com o comecinho do clipe que ele gravou para a música Cowboy Fora da Lei – mas numa situação embaraçosa, não fictícia e, pois, deprimente. Definitivamente, não era o que eu queria ver. E não vi.

Com a leitura da biografia, viajei no tempo, sim, e desembarquei numa manhã de segunda-feira. O ano era 1989, o mês era agosto. Eis que a R., uma estagiária da Caixa, entrou chorando na minha sala e deu a notícia: “O Raul morreu!”. Difícil de acreditar, a notícia me abalou. R. também era fã do baiano. Fui até as imediações do Edifício Aliança; uma multidão já se aglomerava por ali. De noite, tive vontade de ir ao Anhembi, onde o corpo foi velado. Mas, de novo, não era o fim que eu queria. Não fui. Aquele 19 de agosto ficou marcado para sempre. Meu filho nasceu em agosto de 1992 – e o nome, claro, não poderia ser outro: Raul. A Bernadete, em princípio, questionou: “Parece um nome que não tem fim... Rauuullll, uma palavra infinita”. Eu argumentei: “Pois é, Luar é o meu nome aos avessos, não tem fim e nem começo...”. E assim, então, firmamos na ideia. E depois, agosto é um mês interessante: aziago para alguns, festivo para outros. Em agosto nasceu meu filho querido, roqueiro dos bons; em agosto o Maluco se foi; em agosto teve o suicídio de Getúlio. E tem um livro, Casa de Chá Luar de Agosto, de Vem Snaider; e que virou um filme muito bom, estrelado por Marlon Brando, que ali esteve magistral na pele de um nipônico.

Dias atrás, apresentei um texto no 34º Congresso Internacional da SOTER, em que trabalhei algumas poesias de San Juan de la Cruz em cotejo com as adaptações que delas foram feitas pelo nosso inesgotável poeta, sobretudo na música “A fonte”. Raul fez de tudo. Fez e cantou sertanejo, bolero, baião, fez e cantou música cristã, erótica e exotérica, fez e cantou blues, baladas e canções românticas; fez músicas de puro e apaixonado amor. Fez e cantou tango. Ah! claro, fez e cantou rock da melhor qualidade. Em português e em inglês. Foi um sonhador e profundo intelectual. Religioso, antirreligioso e multirreligioso, foi místico, satânico, sacro e profano. Cantou Maria e a Panela do Diabo.

Foi profeta e ateu. Foi filósofo e visionário, astrólogo, ufólogo. Universalista, nasceu há dez mil anos atrás e viveu dez mil anos a frente do seu tempo. Pacifista e libertário. Foi o princípio, o fim e o meio, tudo a um só tempo, ou em vários tempos, verdadeira metamorfose ambulante que era. Aprendeu o jogo dos ratos transando com Deus e com Lobisomem. Beirou a perfeição? Me parece que sim.

Então, caríssimo J. M, é com alegria e pleno de satisfação que lhe devolvo o livro. E o faço garantindo-lhe que me proporcionou excelentes lembranças (embora uma ou outra mais triste, é verdade); e também com a certeza de que a canção não está perdida. Nunca estará perdida. Viverá eternamente em nossa memória. Tocando Raul! Tocando fundo o meu coração, embalando as minhas viagens pelos caminhos da saudade.

Um grande e afetuoso abraço, meu querido amigo.

Ezio

Poços, 13/09/23

 

 

               

5 comentários:

  1. Lembrei , com saudade, do final dos anos setenta, e de muito do que escreveu, afinal, convivemos e vivemos juntos essa época. enfim, os ecos desse tempo , que vamos levar , junto com o "corcel 73"....

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  2. Show, Ezinho! Penso que ele assinaria embaixo

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  3. Maravilha. Não vejo aqui uma crônica. É um quase livro de memórias que foca fato determinado e determinante em sua vida. Parabéns pela capacidade de nos emocionar ao conhecer detalhes a trajetória do grande Maluco Beleza.

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    1. Ah, o comentário acima, tido como anônimo, é de Santino Frezza.

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  4. Ezio, como sempre, me deliciei com seu passeio, cheio e ricas lembranças. É com prazer que leio seus escritos.

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