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Despretensiosos e singelos: é assim que vejo minhas crônicas e meus contos. As crônicas retratam pedaços da minha vida; ora são partes da ...

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sábado, 1 de agosto de 2026

Crônica - A velha casa da Expedicionários

 

A velha casa da Expedicionários é a terceira mais antiga da Vila. Dois quartos, sala e cozinha, com pé direito baixo e sem forro, formavam um modesto quadrado. Havia um poço, profundo, cavado em meios às pedras, que dava águas cristalinas para a família e para a vizinhança. Consta que meu pai desbravou as ruas, com machado e enxadão.  Onde havia apenas demarcação, a custa do suor paterno é que se abriram os caminhos do lugar. Ao menos dava trânsito para uma carroça e um burrinho. 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Crônica - Crônica irônica

 

Não acredito que possa ser verdade o que vem acontecendo. Custo a acreditar. Tempos de mimimi. Que chatice é essa? Então João Bosco não pode mais cantar Gol Anulado? Não pode mais falar nas cintadas que o flamenguista dá, até cansar, na companheira vascaína? Ah! Tenham dó, né?  Mimimi demais. Uma coisa que era tão comum até há algum tempo. E outra: a mulher é do flamenguista!!! Não é de outro qualquer, não. É dele, né?

domingo, 19 de julho de 2026

Crônica - Dirty play, ou coisa parecida

 

Em 2022, torci pelo Messi, na final contra a França. Considero-o um dos melhores do mundo nos últimos trinta anos, pouco abaixo do Ronaldinho Gaúcho, de modo que o título máximo do futebol lhe cairia bem. Zico, Sócrates e Falcão, que pena, não tiveram esse privilégio. Mas agora, em 2026, me regalei com o título dos espanhóis. Jogaram limpo. Na bola. Tic toc refinado.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Crônica - Mão Santa

 

Foi o meu dileto amigo José Alfredo quem me apresentou alguns dos primeiros estádios dos grandes times paulistas. Morumbi, Vila Belmiro, Pacaembu e Brinco de Ouro.  Juntos assistimos vários jogos do Santos. Alfredão também me apresentou o melhor do basquete brasileiro. Em 1981, acompanhamos quase todos os jogos do Mundial Interclubes, no Ibirapuera, por exemplo.

sábado, 21 de março de 2026

Crônica - Nino, o italiano

 

Antes da primeira televisão chegar, brincávamos, à noitinha, na Expedicionários. Ladeira de terra batida e de respeitáveis voçorocas, nos limites da Vila Mamedina, era ali que pai e mãe postavam, depois da janta, as cadeiras no portão. Esperavam a vizinhança. Pique latinha, passa anel, pega-pega, advinhas e joga-lencinho eram diversões habituais. Queimada, só vez ou outra – faltava bola.

sábado, 14 de março de 2026

Crônica - O vira-casaca

 

No tumulto da cena política da virada dos anos 1970 para os 1980, grupos ligados à extrema direita explodiam bombas sem pedir licença, matando pessoas; assim foi na OAB/RJ, onde a secretária da entidade, Lida Monteiro da Silva, morreu ao abrir uma carta-bomba. Incendiavam bancas de jornais nas principais cidades do país, impedindo a venda pacífica de publicações ditas de esquerda. Assim foi com a banca em que eu comprava os jornais do dia, na esquina de casa, no Bixiga, centro de São Paulo.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Carta para meu amigo J. M.

 

Ao amigo J. M.

Em mãos

 

Caríssimo J.M, devolvo-lhe a biografia do Maluco Beleza. Não diga que a canção está perdida. Você foi muito gentil ao me emprestá-la, sobretudo sabendo do meu apreço pelo baiano arretado, baiano de Quenguenhém, oito horas de mula, doze de trem. Meu filho, inclusive, tem o nome em homenagem ao pai do rock brasileiro.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Crônica - Em nome de Jesus

 

“Deus sabe o quanto odiávamos os invasores aliados e os emigrados que os inspiravam, mas odiávamos muito mais os vendeanos, como eram chamados os revoltosos. A hipocrisia de seu grito de guerra ‘Por Jesus’, e dos estandartes do Sagrado Coração que conduziam como se estivessem engajados numa nova cruzada, só era ultrapassada pela brutalidade com que agiam.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Crônica - Projeções

 

As imagens vão se sucedendo, nítidas, a uma velocidade uniforme de vinte e quatro quadros por segundo. Não há uniformidade no desenrolar dos diversos planos, como que numa montagem aleatória, despreocupada com começo, meio e fim. Tudo transcorre no amplo cenário que se vislumbra entre Apiaí, Iporanga e Eldorado.

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Crônica - Volta Seca

 

Quando tudo parecia caminhar para um destino trágico, eis que Volta Seca veio a despontar para um relativo sucesso na seara musical. Nascido em Saco Torto, no agreste sergipano, em 1918, entrou para o grupo de Lampião aos dez anos de idade. Levou ao líder, colado no sovaco, um franguinho como mimo. Implorou o mais que pode para, enfim, ser aceito como ajudante de limpeza nos acampamentos. Vez ou outra também fazia tocaia.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Crônica - Capim Guiné

 

Numa das travessias de balsa que fiz pelo Buranhém, de Arraial D’Ajuda para Porto Seguro, experimentei sublime paz de espírito em elevada contemplação do nada. Absorto e desgarrado do mundo, assim fiquei naqueles instantes, entre um cais e outro. Um marujo, deitado na proa e olhando para o infinito azul celeste, assoviava, hábil, Capim Guiné, gravada por Raul Seixas. O assovio que se sobrepunha ao ronco dos motores e me erguia em êxtase inexplicável. Escutava apenas a música e nada mais. Mirando as águas calmas do caudaloso rio, vivi na ocasião um mágico entardecer.

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Crônica - 25 de abril

 

Das mesas em frente aos bares da Passarela do Álcool, em Porto Seguro, se avista um lindo mar esverdeado, em cujas águas calmas o olhar de quem o contempla navega livremente, até aos mais distantes limites que o imaginário pode alcançar. É um cenário perfeito para um gostoso fim de tarde de verão. O corpo queimado, com vestígios do sal das praias do Arraial D’Ajuda, a travessia de balsa pelo Buranhém. Um prato de lambretas ao molho vinagrete, uma cerveja gelada e a imaginação correndo solta, tudo na mais pura solidão em meio a hippies e descolados de todas as línguas.

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Crônica - Tardes de inverno

 

Tardes de inverno inesquecíveis são as que passei com o Vô Zé Pedro, na Grotinha, bairro da zona rural de Estiva/MG. Aos sábados, depois de um cochilo rápido do pós-almoço, lá ia eu caminhando ao pé das cordilheiras que, uma de cada lado, guardam a estradinha de terra batida que leva até a casa. Duas altas e imponentes cordilheiras que por ali vão se fechando, pouco a pouco, até formarem o vértice de um triângulo. Bonito caminho, aquele. Retardava o passo só para apreciar a paisagem. De baixo para cima, até onde a vista alcançava.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Crônica - Cumuruxatiba

 

Estivemos na então desconhecida Cumuruxatiba, ao sul de Porto Seguro, em março de 1992. Viajamos tão logo confirmada a gravidez da minha companheira, Bernadete, que esperava o nosso querido Raul. Três dias de viagem de São Paulo até lá, num Ford Escort de segunda mão, com duas paradas pelo caminho: em Rio das Ostras/RJ e em Aracruz/ES. Nesta última aproveitamos as boas instalações de um hotel, que compensou o cheiro nauseante da imensa fábrica de celulose que já predominava no local.

domingo, 29 de setembro de 2024

Crônica - Ternas memórias

 

Eis que me chega, como regalo do meu filho Raul, As Ternas Memórias de Julio Escobar e Outras Rememorações, livro com 18 contos da lavra do escritor e querido amigo Marco Antonio Bin, lançado em 2023 pela Mondru Editora. Garantia de uma leitura agradável, estou certo disso, pelo tanto que conheço do estilo fluente, leve e inteligente que caracteriza os textos do autor.

domingo, 21 de julho de 2024

Crônica - Canción Mixteca


 

Eis uma poesia para ser apreciada palavra por palavra, verso por verso, rima por rima. Pausadamente: Canción mixteca. Melhor se apreciada em espanhol, língua que confere toda a dramaticidade que o tema requer.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Crônica - Girondino

 

Eis que o Girondino, restaurante tradicional do centro da Capital paulista, anuncia o cerramento das portas. Aberto em 1998, sucumbiu aos efeitos críticos da pós-pandemia. Pratos excelentes, preços moderados e um bom lugar para um requintado café. Situado na esquina das ruas Boa Vista e São Bento, do seu interior gostosamente decorado se avistava, pelas janelas envidraçadas, o imponente mosteiro de São Bento e todo o largo que se descortina a sua volta.

sexta-feira, 31 de maio de 2024

Crônica - Peladeiro

 

Na sala de jantar tem uma bola de futebol de salão, das antigas. Murcha que só ela, ao pé da mesa de madeira maciça. Está ali já há muitos anos. Uns quinze anos, mais ou menos. Sem exagero. Fica sempre por ali. Ora um pouco mais para lá, ou mais para cá; às vezes, encostada ao pé da mesa; outras vezes, mais próxima da parede. Vai variando de lugar conforme é movida nas varrições cotidianas do piso que inadvertidamente a sustém. Ber e Raul sempre toleraram; nunca reclamaram e nem fizeram menção de tirá-la dali. Nunca falaram nada, nenhuma oposição. Compreendem, creio, que ela mantém vivos na minha memória os divertidos e distantes tempos de peladeiro. Simboliza um gostoso passado.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Crônica - Macetando o apocalipse

 

Macetar, que eu conheço, significa bater com o macete, amassar, esmagar. Macetamos o alho, o milho, os grãos de pimenta, ou coisas do tipo. Sem qualquer outra conotação. Macetar o apocalipse, eu diria, é bater, amassar, destruir o apocalipse, reduzi-lo a pó. Mas, vamos ao caso; pescando nas barrancas do Mandu, no Bairro da Faisqueira, em Pouso Alegre, fiquei sabendo, entre um lambari e outro, que bem ali, onde eu me acocorava, um tal de Thomaz Green Morton teria recebido uma descarga elétrica certeira, bem no meio da testa, criando uma vistosa proeminência logo acima dos olhos. Ou, como se diz, um galo avermelhado e saliente, que o acompanharia para sempre.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Crônica - Viagens - 2

 

Conhecemos a Costa do Descobrimento nos anos ‘80. Foram sete viagens: quatro de ônibus, duas de carro e uma, a última, de avião, em ’98. Porto Seguro é deslumbrante: verdes mares e vastos coqueirais, sobretudo os que se avistam do alto do Arraial d’Ajuda. A preguiçosa travessia do indolente Buranhém, numa pequena balsa; o agito da noite na Passarela do Álcool. Nas areias de Trancoso, a liberdade do corpo. Mais ao lado, Santa Cruz de Cabrália disputa com PS a duvidosa honra do desembarque de Cabral; é onde desemboca o caudaloso e temido João de Tiba. E de onde se alcançava, de barco, a ilha de Santo André e os recifes, o Dentro e o de Fora.