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Despretensiosos e singelos: é assim que vejo minhas crônicas e meus contos. As crônicas retratam pedaços da minha vida; ora são partes da ...

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sábado, 23 de novembro de 2024

Conto - Caminhando pelo campus

 

Em noites de sono desequilibrado e inconstante, fico num tal de dorme e acorda, me viro de um lado e para outro da cama. Me levanto e logo deito de novo. Fico num vai e volta que não me aguento. Durmo, não durmo, fecho e abro os olhos. Algumas vezes eu durmo profundamente mesmo estando acordado; outras vezes eu me sinto desperto por inteiro, ativo e em plena lucidez mesmo estando dormindo o mais pesado sono dos justos. E nessas ocasiões eu caminho dormindo, feito um alucinado e sem rumo certo. Eu ando, ando e ando. Ando dormindo ou acordado, como um sonâmbulo. É o que mais tenho feito. Ando pela casa, pelo quintal, ando pelas calçadas, ruas e praças da cidade. Quase todas as noites é assim. Dobrar a dose do sonífero pouco ou quase nada resolve.

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Conto - Normal

 

Normal, é o que eu gosto de ser. Não sou dado a extravagâncias, de nenhuma ordem. Quero dizer, nada de esquisitices ou de excentricidades. Prefiro as coisas comuns, triviais. Vivo dentro da normalidade. Igual todo mundo. Detesto ser diferente, por atos ou palavras, por roupas, por adornos pessoais ou, sei lá, por qualquer outro negócio. Não sou dado a fantasias, a invencionices ou a manias. Detesto balda e vareio particulares pelo simples fato de que isso atrairia as atenções alheias sobre a minha pessoa, o que para mim seria insuportável.

domingo, 23 de maio de 2021

Electric Mifeng - Parte final

 

Na manhã seguinte, os chips estavam carregados e as abelhas, prontas para a decolagem, estavam alinhadas sobre uma placa-mãe-plástica. Ligado o sistema, deu-se a suprema e emocionante primeira revoada, para deleite de Jards. Voaram as explorfengs, em cautelosas panorâmicas e em altitudes alternadas, ora rente ao chão, ora um pouco mais alto, ultrapassando, inclusive, os muros da vizinhança. Jards mal conseguiu conter a emoção, embora conhecesse exatamente todas as etapas da enxameação. No terceiro dia de exploração, já estavam instaladas numa caixa de acrílico fosco, num canto do quintal, que emitia ondas magnéticas de curto alcance de uma atrativa fragrância floral rústica.

domingo, 16 de maio de 2021

Electric Mifeng - Parte I

 

Jards acordou em sobressalto, numa manhã de Outubro de 2057. Achava que tinha perdido a hora. Apressado, pulou da cama, abriu a janela e recebeu a luz ofuscante do sol diretamente na cara; a grande bola vermelha recém-saída do horizonte mostrava que ainda era cedo. Ufa! Que bom, pensou ele!  Era apenas uma questão de controlar a ansiedade. Havia, ao menos, a promessa de um dia quente e propício para a montagem das abelhas elétricas que receberia naquela manhã. Com alguns esforços e sem perder tempo com coisas paralelas, talvez conseguisse montar todas até o final da tarde.

domingo, 12 de abril de 2020

Conto - Uma partida dos diabos

Fui mordomo, por muitos anos, de uma família abastada. Pai, mãe e filho único moravam num castelinho, num alto de montanha, lugar afastado da cidade. O filho sempre foi excêntrico, de hábitos soturnos e estranhos, razão pela qual, aliás, fui contratado. A ele eu devotava meus cuidados; fui contratado basicamente para cuidar dele, em tempo integral. Louis, esse era o seu nome, pouco me notava; nada me exigia de extraordinário.

domingo, 22 de março de 2020

Conto - Em branco e preto, 4a. parte

Passei muitas dificuldades. Sou descendente de escravos e nunca tive muitas oportunidades na vida. Meu pai, que trabalhava em uma quinta, me colocou num Seminário, onde me fiz Diácono. Hoje, felizmente, levo uma vida tranquila: com minhas túnicas alvas, que contrastam com o meu tom de pele, exerço meu oficio nas igrejas da região.

Conto - Em branco e preto, 3a. parte

Plácido casou-se já com idade um pouco mais avançada, tomando uma jovem e bela mulher como esposa. Talvez até mais por interesse, eis que ela herdara uma quinta, famosa pela boa produção de uvas viníferas. Apolônia era o nome dela.

Conto - Em branco e preto, 2a. parte

Ao abrigo do escuro e do disfarce eficiente, nosso Reggy se esgueirava, resoluto e firme, pelas calçadas até à casa da amante, Apolônia. Ali, a sós, ambos se deleitavam a mais não poder. Um homem de meia idade e uma mulher jovem, inquieta e cheia de vida, de apetites insaciáveis.

sábado, 21 de março de 2020

Conto - Em branco e preto, 1a parte

Reggy era frequentador assíduo de um casarão, aos fins de semana. Todos os sábados e domingos, sem falta. Chegava sempre à tardinha, para jogar xadrez com um grupo restrito de amigos. Levava o seu próprio jogo de peças, artisticamente entalhadas em marfim e em pau-roxo, com peso na base e de perfeito equilíbrio. Peças bem proporcionadas e acondicionadas no veludo de uma bonita caixa de tampo marchetado e encerado, que carregava sempre consigo.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Conto - Polidactilia

Histórias de mãos cheias de dedos nunca me impressionaram. Sempre encarei como uma particularidade de uns e outros. Jamais me preocupei com isso; por vezes nem percebia. Enfim, não me causavam maiores transtornos, não me incomodavam.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Conto - Reconhecimento


Esperava paciente há umas duas horas, aproximadamente. Na sala branca, acarpetada, eu e mais alguns poucos, todos homens de meia idade, agasalhados, ocupávamos  os já gastos sofás de couro, outrora mobiliário fino. Sons de máquina de escrever, vindos de muito longe, era apenas o que se ouvia.