A velha casa da Expedicionários é a terceira mais antiga da Vila. Dois quartos, sala e cozinha, com pé direito baixo e sem forro, formavam um modesto quadrado. Havia um poço, profundo, cavado em meios às pedras, que dava águas cristalinas para a família e para a vizinhança. Consta que meu pai desbravou as ruas, com machado e enxadão. Onde havia apenas demarcação, a custa do suor paterno é que se abriram os caminhos do lugar. Ao menos dava trânsito para uma carroça e um burrinho.
Foi nesta velha e humilde e morada que
vim à luz. Nasci ali, em domicílio, pelas mãos de uma parteira. As sucessivas reformas
resultaram no formato atual: três quartos, duas salas de estar, ampla sala de refeições,
cozinha e área de serviço.
Na frente, à vista da rua e divisando
com a calçada, hoje tem uma área de estar, de pouco uso. Quem dá as costas para
o sul e adentra por um portãozinho de ferro, pelo lado direito da casa, alcança,
através de um corredor estreito e comprido, os fundos da residência. Ali tem, hoje,
um amplo espaço coberto, misto de garagem e área de descanso. O corredor sempre
foi, e ainda é, o acesso mais usado, dado que a porta da frente da casa permanece,
de antigo costume, regiamente chaveada.
Outrora havia uma faixa de jardim, também
de sul a norte, em que minha mãe cultivava, entre uma roseira e outra, extensa plantação
de margaridas. A florada coincidia, quase sempre, com o dia dos mortos; um lençol
branco pintalgado de amarelo vivo despertava a atenção dos que passavam pela
Expedicionários. Alguns buquês eram vendidos, para ajudar nas contas do fim do
mês. É entre o jardim e a casa que fica o dito corredor; tempos atrás ele era ornamentado
com retalhos de cerâmica vermelha, que era a moda da época, bem adequada,
diga-se, ao bolso dos mais pobres.
Um frondosa videira era meticulosamente
podada, no inverno, pelo nonno Alexandre; e no verão refrescava uma boa parcela
do terreno. Sob a sua sombra eu brincava: em tiras de madeira esculpidas a
golpes de facão, arremedos de automóvel e de caminhão, postos sobre carretéis
de linha de costura, transportava o viajante pelas estradas sonhadas. Nas viradas
de ano, os cachos viçosos, plenos de grãos arroxeados, colhidos em bacias de
alumínio pelo pai, adoçavam as singelas festas de passagem.
Hoje é a casa comum dos filhos. Na ausência
de pai e mãe, que já partiram, foi mantida com o mesmo mobiliário que eles
deixaram. Camas, mesas, fogão, geladeira, essas coisas, ainda nos servem. No
entanto, as margaridas já não mais se fazem presentes. Da antiga videira já não
há o mínimo resquício; no lugar dela, um pé de lichia se ergue magistral, com
frutos inalcançáveis.
O imóvel ainda resiste. Nos acomoda bem
nas frequentes visitas que ali fazemos. Há um tanto saudades, é claro; mas,
sobretudo, a velha casa da Expedicionários evoca as muitas e alegres lembranças
de um tempo bom que ali vivemos.
Bela descrição da nossa morada na infância e adolescência. Cheguei ali nos últimos dias de 1950, quando a casa modesta, mas acolhedora, foi inaugurada.
ResponderExcluirLinda crônica.. perfeita descrição. Não vou palpitar para não atrapalhar. Veio à mente, apenas, a existência atual dos ipês das variadas cores, sempre florindo e decorando o quintal, a cabreúva gigantesca que o pai dizia que enquanto vivesse ninguém mexeria com ela( que deu origem a várias outras), além das frutíferas que ornamentam a área. Tudo isso formando um conjunto raríssimo nos dias de hoje, um espaço que já está acolhendo a quarta geração Frezza. Merece ser preservado.
ResponderExcluirLinda crônica.. perfeita descrição. Não vou palpitar para não atrapalhar. Veio à mente, apenas, a existência atual dos ipês das variadas cores, sempre florindo e decorando o quintal, a cabreúva gigantesca que o pai dizia que enquanto vivesse ninguém mexeria com ela( que deu origem a várias outras), além das frutíferas que ornamentam a área. Tudo isso formando um conjunto raríssimo nos dias de hoje, um espaço que já está acolhendo a quarta geração Frezza. Merece ser preservado.
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