O pai dela era
marceneiro, dos bons. Fazia os móveis da casa e ainda presenteava os filhos, no
casamento, com uma cama confortável e de cabeceira ricamente entalhada a
formão. Veio moço da Itália, para conhecer a América, com alguns parentes. Só
voltaria uma vez para a terra natal: para se casar com a noiva que ficou
esperando e para obter a dispensa do Exército Real. Depois disso, muitas cartas,
que se perderam no tempo.
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Despretensiosos e singelos: é assim que vejo minhas crônicas e meus contos. As crônicas retratam pedaços da minha vida; ora são partes da ...
segunda-feira, 20 de janeiro de 2020
segunda-feira, 13 de janeiro de 2020
Crônica - Marcha para oeste
Quando criança, conheci o Bugre, Seu
Joaquim. De fala mansa, poucos dentes na boca, barba branca e rala, dominava as
densas matas que davam limites à Vila Mamedina. Percorria as trilhas em busca
de ervas medicinais e com elas curava toda sorte de males e doenças da
vizinhança. Curou a perna da minha nona, que médico nenhum dava conta; só não
deu jeito de curar o netinho, João: o infeliz garoto morreu de tétano, que ninguém
nem sabia direito o que era.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2019
Crônica - Essa gente
Ouvi falar de Jimmy Hoffa,
pela primeira vez, no ano de 1979, em uma reunião da antiga Convergência
Socialista. Foi Babel quem mo descreveu como um sindicalista norte-americano
muito poderoso e carismático, personalista e autoritário, que teria sido assassinado
alguns anos antes. Seu corpo nunca foi encontrado e nem se soube quem o matou.
Hoffa exercia domínio pleno e absoluto sobre tudo que envolvesse os transportes
rodoviários do seu país, assim como sobre tudo o que, de algum modo, pudesse
interferir nas relações entre sindicato e caminhoneiros.
domingo, 10 de novembro de 2019
Crônica - Memórias quase apagando
Foi em 1983, talvez, que presenciei uma cena marcante, cujos fragmentos
ficaram indeléveis na minha memória: Orígenes Lessa e Carlos Drummond de
Andrade estavam conversando, em pé, na porta de entrada do Ginásio Virgílio
Capoani, na minha natal Lençóis Paulista. Foi numa manhã de domingo, durante
uma feira de livros. Minha memória já não me ajuda em quase nada, mas essa
imagem dos dois gigantes não se apagará nunca, eu espero.
sexta-feira, 25 de outubro de 2019
Crônica - Marias e Clarices
O Dr. João Gomes Martins, aos 69 anos, chegava por volta do meio dia.
Chegava sem emitir um único som, como se pisasse em nuvens, tão macios eram
seus passos. Passava altivo pelo corredor e se dirigia ao seu gabinete,
acompanhado do motorista, dublê de segurança. Dali só saia no fim da tarde, com
o mesmo silêncio da chegada.
terça-feira, 8 de outubro de 2019
Crônica - Torre de Vidro
Meu primeiro local de trabalho em São Paulo foi no prédio da Companhia
Comercial de Vidros do Brasil, em fins de abril de 1978; uma construção linda,
com fachada de vidro verde, na esquina da Rua Antonio de Godoy com a Avenida
Rio Branco, no centro de São Paulo. Eram 24 andares de brilho e de imponência
naquele foi um dos mais modernos prédios da capital paulista no seu efêmero
apogeu. Era a Torre de Vidro.
segunda-feira, 30 de setembro de 2019
Crônica - Parto secreto
Nasci em domicílio, está
lá na minha certidão de nascimento. Nasci em casa, pelas mãos de uma parteira,
que era assim que se nascia no meu tempo. Foi por volta das nove horas da manhã.
Eu sempre soube do meu nascimento em domicílio porque é assim que está no
registro civil; porém, nunca ouvi maiores detalhes sobre a minha vinda ao mundo.
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