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Despretensiosos e singelos: é assim que vejo minhas crônicas e meus contos. As crônicas retratam pedaços da minha vida; ora são partes da ...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Crônica - Cinzas sabáticas

 

Na quarta-feira passada o sol apareceu cedo, escancarado, em contraste com a sisudez chuvosa dos últimos dias. Era quarta-feira de cinzas. As minhas cinzas sabáticas, ao meu modo. Tomei preguiçosamente o café da manhã, um gostoso e cheiroso café preto. Um pão com manteiga na frigideira de desjejum. Li apenas as frivolidades das redes sociais, sem pressa e sem maiores atenções. Passei ao largo das notícias mais sérias. Foi um dia de nada fazer além das necessidades básicas: um almoço trivial, de rápido e simples preparo, coisas do tipo. E retomei de um só fôlego a metade final que me restava para concluir de O Talentoso Ripley.

domingo, 12 de fevereiro de 2023

Resenha - Um clipe diabólico

Quem procura, acha. Esse velho adágio se adapta como um capuz feito sob medida para o caso: deu-se que um sindicante diabo, não se sabe se pobre ou rico, tanto procurou que, enfim, logrou êxito em encontrar a quem avidamente procurava. Desviando das pedras, evitando os penhascos, subindo e descendo cauteloso as trilhas estreitas entre as altas árvores, lá estava, numa clareira, a Devils em vibrante apresentação do seu último lançamento – Deny The Light, uma bem destilada e saborosa cachaça musical que nem o mais dos abstêmios deixaria de experimentar.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Crônica - Jin Jones

 

Num tempo em que não tínhamos internet e nem redes sociais, foi através da Folha de São Paulo que eu li, numa manhã de novembro de 1978, sobre um suicídio coletivo, ocorrido na Guiana, provocado por um fanático religioso conhecido por Jim Jones. Muito se escreveu acerca deste episódio: centenas de páginas sobre o assunto, uma infinidade de livros, teses e artigos acadêmicos, diversos filmes e documentários estão à disposição do leitor.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Conto - O inverno do capitão

 

Quem o vê, e são poucos os que agora conseguem vê-lo rastejando informe e desengonçado pelo gramado nas imediações do palácio presidencial que lhe fez as vezes de covil nos últimos anos, não consegue sequer imaginar que esse ser rastejante é o mesmo que governou o país com mãos de ferro e envoltas em sangue até há poucos meses.

domingo, 11 de dezembro de 2022

Crônica - Balada para un loco

 

As tardezinhas de Buenos Aires têm essas coisas ... sei lá o que, sabe? De repente alguém sai pelas ruas e se vê a si próprio surgindo de trás de uma árvore: mescla rara de astronauta que voltou de Vênus e acróbata que tem as rosas da camisa desenhadas sobre a própria pele; meia melancia na cabeça, meia-sola nos pés, o semáforo da esquina lhe saúda com luzes celestes.

sábado, 19 de novembro de 2022

Crônica - Bugre

 

Bugre era o apelido carinhoso de um vizinho na minha infância. Sua aparência física, rosto imberbe, a voz aguda e a (bonita) cor da pele justificavam a alcunha. Descendia dos caingangues, creio, que habitaram a região até o final dos 1800. Homem de fibra, traços fortes, de afável e educado trato, sobrevivia de aposentadoria após ter trabalhado na antiga Sorocabana. Na manutenção dos trilhos, percorria longas distancias pela zona rural, onde a vegetação nativa ainda estava preservada.

sábado, 22 de outubro de 2022

Resenha - Língua perdida

 

No geral, até que gosto de ler resenhas de livros, filmes, shows e sobre o que mais se me apresentar. Eu mesmo não sou dado a fazê-las. Nunca fiz, que me lembre. Abro uma exceção, agora, diante do Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior, com que Raul, meu filho, me regalou. Espero que o meu imediatismo não contamine o resultado final – mal terminei a leitura e já me pus a escrever, sem as reflexões mais aprofundadas que o romance merece. Não que eu queira um brilho vago nas redes sociais; antes, desejo apenas expor o meu apreço pela obra.