As cortinas dos leitos eram cerradas de quando em quando. Repentinamente, sem aviso prévio. Duas ou três vezes por dia. Ou talvez mais vezes, dado que em alguns momentos eu apagava não em definitivo. Mãos rápidas corriam, leito por leito, puxando o cortinado. Pelas frestas, porém, dava para ver: era o carro da saudade que passava, levando mais um inerte e oblongo pacote. Envolto em lençol de pontas firmemente amarradas.
Os que por ali eram transportados deixavam
apenas saudade. Nada mais que saudade. Passavam, simplesmente. Sem ter nem
sequer direito a um minguado cortejo. Sem discursos e sem homenagens. Sem velas.
Sem nem direito ao luto, porque tudo tinha que ser de pressa.
Só um condutor para o carro da
saudade. Solitário, com passadas firmes, resolutas, cumpria o seu ofício.
Rigoroso com si próprio, deslizava o carrinho pelo frio corredor de mármore
branco. Um rosto inescrutável, mirando o infinito que se abria a sua frente. Seria
Caronte a atravessar os rios fétidos do último dos profundos círculos? Ou seria
a cândida Beatriz, em direção às alturas, à elevação sublime? Ou, então, quem
sabe? um guia de luz, com destino à Aruanda? Nunca se sabe.
Eu ficava ali, espreitando. Quieto. Era
o que me cabia, compungido. Movendo apenas os meus olhos de um lado para o
outro. Deitado e em silêncio. Tudo era silêncio. Nenhum som se ouvia, além das
rodas do carro mal lubrificadas. Junto comigo, bem próximos, dava para sentir os
amiguinhos da Lúcia. Quietos todos eles. De camisolinhas brancas,
descalços. Suavemente se revezavam no
deslizar das mãos macias pelo meu peito arfante. Me acalmavam. Ah! Os
amiguinhos da Lúcia...
Quando passava um outro carro da saudade, tudo
então se repetia. Tudo igualzinho. Repetição invariável. De dia ou de noite.
Todos os dias. Todas as noites. Eu tudo via, protegido pelos amiguinhos da
Lúcia.
Muito bom poder assistir esse último passeio. Sem participar. Espero que comigo o passeio seja zero.
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