Antes da primeira televisão chegar, brincávamos, à noitinha, na Expedicionários. Ladeira de terra batida e de respeitáveis voçorocas, nos limites da Vila Mamedina, era ali que pai e mãe postavam, depois da janta, as cadeiras no portão. Esperavam a vizinhança. Pique latinha, passa anel, pega-pega, advinhas e joga-lencinho eram diversões habituais. Queimada, só vez ou outra – faltava bola.
Vinham o tio Perantoni, a tia Rita, as primas.
Uns e outros amigos também. Criançada brincando. Os adultos nas conversas mansas
e descontraídas. Sim, também vinha o bom e velho Gijoli, homem que cuidava de um
vistoso roseiral, nas margens do Lençóis. Gijoli pescava bons lambaris nos
fundos da chácara. Também gostava de caçar com bodoque, ele mesmo fazendo a atiradeira
e a munição adequada, bolinhas de barro bem batido e petrificada ao sol.
Um dia, em meados de 1969, veio uma Telefunken.
As brincadeiras foram se raleando. Ajustava-se a antena, no alto do telhado, na
direção da torre de transmissão. Conforme o canal preferido. Vira para cá, vira
para lá e a coisa funcionava mais ou menos. Por vez um bombril, fixo atrás da
televisão e esticado para a janela, ajudava também. Imagens precárias, mas deu
para ver o milésimo gol do Pelé, no Maracanã. E também a descida do Armstrong e
do Michael Collins na lua. Feitos relevantes e comemorados – menos pela
vizinha, que negava veementemente a conquista da lua: Vocês acreditam nisso? Tudo
mentira! Onde São Jorge habita o homem não apita. E pronto!
Nino, O Italianinho, na antiga Tupi, fez grande sucesso na cidade.
Os oriundi gostavam do Nino. Homens pobres e sofridos, de lutas
incansáveis, que precisavam de braços de ferro, no sol e na chuva, sem hora
certa, para ganhar o prato do dia. Sem medir esforços. Viam-se a si próprios na
pele do Nino, no suor diário, no sotaque arrastado, típico da ancestralidade
que ficou perdida no solo italiano. Nas palavras guardadas do dialeto de pais e
avós e em tudo o mais que guardavam por direito adquirido.
O velho Gijoli muito se extasiava com o Nino. Porca Miséria! Que belo! Meu pai também gostava. Terminado o capítulo da noite, Gijoli dava uma escapada até a porta de casa. Da rua mesmo. Capice? Ah! Bella roba! E comentava as cenas recém vistas na televisão. Comentava rapidamente, que amanhã se levanta cedo.
Andiamo via. Buona sera. Buona sera ...
Nenhum comentário:
Postar um comentário