Postagem em destaque

Sobre o Blog

Despretensiosos e singelos: é assim que vejo minhas crônicas e meus contos. As crônicas retratam pedaços da minha vida; ora são partes da ...

sábado, 21 de março de 2026

Crônica - Nino, o italiano

 

Antes da primeira televisão chegar, brincávamos, à noitinha, na Expedicionários. Ladeira de terra batida e de respeitáveis voçorocas, nos limites da Vila Mamedina, era ali que pai e mãe postavam, depois da janta, as cadeiras no portão. Esperavam a vizinhança. Pique latinha, passa anel, pega-pega, advinhas e joga-lencinho eram diversões habituais. Queimada, só vez ou outra – faltava bola.

Vinham o tio Perantoni, a tia Rita, as primas. Uns e outros amigos também. Criançada brincando. Os adultos nas conversas mansas e descontraídas. Sim, também vinha o bom e velho Gijoli, homem que cuidava de um vistoso roseiral, nas margens do Lençóis. Gijoli pescava bons lambaris nos fundos da chácara. Também gostava de caçar com bodoque, ele mesmo fazendo a atiradeira e a munição adequada, bolinhas de barro bem batido e petrificada ao sol.

Um dia, em meados de 1969, veio uma Telefunken. As brincadeiras foram se raleando. Ajustava-se a antena, no alto do telhado, na direção da torre de transmissão. Conforme o canal preferido. Vira para cá, vira para lá e a coisa funcionava mais ou menos. Por vez um bombril, fixo atrás da televisão e esticado para a janela, ajudava também. Imagens precárias, mas deu para ver o milésimo gol do Pelé, no Maracanã. E também a descida do Armstrong e do Michael Collins na lua. Feitos relevantes e comemorados – menos pela vizinha, que negava veementemente a conquista da lua: Vocês acreditam nisso? Tudo mentira! Onde São Jorge habita o homem não apita. E pronto!

Nino, O Italianinho, na antiga Tupi, fez grande sucesso na cidade. Os oriundi gostavam do Nino. Homens pobres e sofridos, de lutas incansáveis, que precisavam de braços de ferro, no sol e na chuva, sem hora certa, para ganhar o prato do dia. Sem medir esforços. Viam-se a si próprios na pele do Nino, no suor diário, no sotaque arrastado, típico da ancestralidade que ficou perdida no solo italiano. Nas palavras guardadas do dialeto de pais e avós e em tudo o mais que guardavam por direito adquirido. 

 O velho Gijoli muito se extasiava com o Nino. Porca Miséria! Que belo! Meu pai também gostava. Terminado o capítulo da noite, Gijoli dava uma escapada até a porta de casa. Da rua mesmo. CapiceAh! Bella roba! E comentava as cenas recém vistas na televisão. Comentava rapidamente, que amanhã se levanta cedo.

Andiamo via. Buona sera. Buona sera ...

 

 

Livro sobre a TV Tupi ganha versão atualizada e ampliada ...

 


 

2 comentários:

  1. Belas lembranças. O Gijoli, que também consertava - ou estragava de vez - pescoços com torcicolo,
    confundia o intervalo comercial com a sequência do capítulo e dava boas gargalhadas.

    ResponderExcluir
  2. Suas crônicas são encantadoras. Da época sem TV me lembro bem rss. Alias, ter passado pela experiência de brincar na rua, na frente de casa, foi muito bom!!!!! A convivência com italianos vive nas lembranças de muitos paulistanos, né???? Grande abraço.

    ResponderExcluir