Quando ele nasceu um Anjo lhe disse:
Vai, cara, vai ser um merda na vida!
Foi desse jeito mesmo, como se dissesse por
gabolice.
Foi assim, de mau agouro, que o cara entrou na vida
sofrida.
Despretensiosos e singelos: é assim que vejo minhas crônicas e meus contos. As crônicas retratam pedaços da minha vida; ora são partes da ...
Quando ele nasceu um Anjo lhe disse:
Vai, cara, vai ser um merda na vida!
Foi desse jeito mesmo, como se dissesse por
gabolice.
Foi assim, de mau agouro, que o cara entrou na vida
sofrida.
Numa das travessias de balsa que fiz pelo Buranhém, de Arraial D’Ajuda para Porto Seguro, experimentei sublime paz de espírito em elevada contemplação do nada. Absorto e desgarrado do mundo, assim fiquei naqueles instantes, entre um cais e outro. Um marujo, deitado na proa e olhando para o infinito azul celeste, assoviava, hábil, Capim Guiné, gravada por Raul Seixas. O assovio que se sobrepunha ao ronco dos motores e me erguia em êxtase inexplicável. Escutava apenas a música e nada mais. Mirando as águas calmas do caudaloso rio, vivi na ocasião um mágico entardecer.
Das mesas em frente aos bares da Passarela do Álcool, em Porto Seguro, se avista um lindo mar esverdeado, em cujas águas calmas o olhar de quem o contempla navega livremente, até aos mais distantes limites que o imaginário pode alcançar. É um cenário perfeito para um gostoso fim de tarde de verão. O corpo queimado, com vestígios do sal das praias do Arraial D’Ajuda, a travessia de balsa pelo Buranhém. Um prato de lambretas ao molho vinagrete, uma cerveja gelada e a imaginação correndo solta, tudo na mais pura solidão em meio a hippies e descolados de todas as línguas.
Tardes de inverno inesquecíveis são as que passei com o Vô Zé Pedro, na Grotinha, bairro da zona rural de Estiva/MG. Aos sábados, depois de um cochilo rápido do pós-almoço, lá ia eu caminhando ao pé das cordilheiras que, uma de cada lado, guardam a estradinha de terra batida que leva até a casa. Duas altas e imponentes cordilheiras que por ali vão se fechando, pouco a pouco, até formarem o vértice de um triângulo. Bonito caminho, aquele. Retardava o passo só para apreciar a paisagem. De baixo para cima, até onde a vista alcançava.
Estivemos na então desconhecida Cumuruxatiba, ao sul de Porto Seguro, em março de 1992. Viajamos tão logo confirmada a gravidez da minha companheira, Bernadete, que esperava o nosso querido Raul. Três dias de viagem de São Paulo até lá, num Ford Escort de segunda mão, com duas paradas pelo caminho: em Rio das Ostras/RJ e em Aracruz/ES. Nesta última aproveitamos as boas instalações de um hotel, que compensou o cheiro nauseante da imensa fábrica de celulose que já predominava no local.
Em noites de sono desequilibrado e inconstante, fico num tal de dorme e acorda, me viro de um lado e para outro da cama. Me levanto e logo deito de novo. Fico num vai e volta que não me aguento. Durmo, não durmo, fecho e abro os olhos. Algumas vezes eu durmo profundamente mesmo estando acordado; outras vezes eu me sinto desperto por inteiro, ativo e em plena lucidez mesmo estando dormindo o mais pesado sono dos justos. E nessas ocasiões eu caminho dormindo, feito um alucinado e sem rumo certo. Eu ando, ando e ando. Ando dormindo ou acordado, como um sonâmbulo. É o que mais tenho feito. Ando pela casa, pelo quintal, ando pelas calçadas, ruas e praças da cidade. Quase todas as noites é assim. Dobrar a dose do sonífero pouco ou quase nada resolve.
Eis
uma poesia que foi pensada, inicialmente, para destacar as belezas do campus
da PUC em Poços de Caldas. E como tal vai aqui publicada. Posteriormente, o que
era uma simples poesia virou um conto, cujo teor será postado daqui a alguns
dias. Por enquanto, pois, apenas a poesia:
CAMINHANDO PELO CAMPUS
No arremedo de hendecassílabos versos
um poeta ignoto, já mal ajambrado,
professa: caros caminhantes dispersos,
eis um campus para sempre ser lembrado.