“Deus sabe o quanto odiávamos os invasores aliados e os emigrados que os inspiravam, mas odiávamos muito mais os vendeanos, como eram chamados os revoltosos. A hipocrisia de seu grito de guerra ‘Por Jesus’, e dos estandartes do Sagrado Coração que conduziam como se estivessem engajados numa nova cruzada, só era ultrapassada pela brutalidade com que agiam.
(...) Não eram poupadas nem mulheres nem
crianças, e os homens eram lançados, ainda vivos, nas valas repletas de
cadáveres. Os sacerdotes que haviam jurado fidelidade à Constituição eram
atados aos cavalos e arrastados pelas estradas poeirentas até que os seus
corpos se desconjuntassem. (...) Usando fitas brancas e penachos também
brancos, os líderes monarquistas incitavam ao avanço seus exércitos de camponeses
ignorantes, prometendo-lhes maiores despojos e novas conquistas, enquanto os
padres na retaguarda convocavam-nos à missa antes de cada batalha.
Ajoelhada diante do crucifixo ao amanhecer,
marchando através de aldeias indefesas ao meio-dia, embriagada de carnificina e
vitórias ao pôs do sol, a turbamalta conquistadora, indisciplinada, mas
corajosa, chamando-se a si própria de exército de Deus, avançou nos meses de
abril e maio para o que parecia ser a vitória final.”
Trata-se de um pequeno recorte de Duro é o cristal, romance histórico da inglesa Daphne du Maurier, ambientado na Revolução Francesa, conforme p. 236, Editora Record, Rio de Janeiro, 1966.
Qualquer
semelhança com a realidade atual não é mera coincidência.
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